PSP desmantela acampada pela habitação no Porto e movimento denuncia 37 feridos

PSP desmantela acampada pela habitação no Porto e movimento denuncia 37 feridos

15/10/2026 0 Por Redação

A acampada de protesto contra a crise da habitação, instalada na Praça de D. João I, no Porto, foi desmantelada pela PSP na madrugada desta quinta-feira. A intervenção policial ocorreu cerca das 02h50, depois de os jornalistas terem abandonado o local, e motivou denúncias de violência por parte dos manifestantes, que contabilizam 37 feridos, dois dos quais em estado grave, com fraturas.

Segundo os relatos de participantes no protesto, os agentes da polícia de intervenção ordenaram a retirada das tendas, que tinham sido montadas na noite anterior por decisão de uma assembleia popular. Os manifestantes afirmam que cumpriram a ordem e desmontaram as estruturas, mas alegam que, mesmo assim, foram alvo de agressões com bastões.

José Soeiro, sociólogo e dirigente do Bloco de Esquerda, encontrava-se na praça e relatou os acontecimentos nas redes sociais. Segundo o testemunho, depois de as tendas terem sido desmontadas e arrumadas, os serviços municipais terão recolhido e destruído as estruturas, juntamente com panos com reivindicações, cartazes e pertences pessoais dos participantes.

O dirigente político afirma também ter sido atingido por agentes policiais enquanto filmava a intervenção, relatando agressões na cabeça e nas costas. José Soeiro criticou a atuação das autoridades e responsabilizou o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, pelas consequências da operação.

O Movimento pela Habitação denuncia o que considera ter sido o uso de força extrema, desproporcional e injustificada contra um protesto que classifica como pacífico. A organização contabiliza 37 feridos, incluindo uma pessoa com deficiência, e refere que vários participantes tiveram de receber assistência hospitalar. Os números e as circunstâncias relatadas pelo movimento não foram, até ao momento, confirmados publicamente pelas autoridades.

Também outros manifestantes, ouvidos por órgãos de comunicação social, contestaram a atuação policial e denunciaram a destruição de material e o desaparecimento de pertences pessoais. Os Bombeiros Voluntários do Porto confirmaram que alguns participantes se deslocaram ao quartel para receber assistência.

A PSP apresentou uma versão diferente dos acontecimentos. À Rádio Renascença, admitiu que a intervenção foi «mais musculada», alegando resistência à retirada das tendas. A força policial afirmou não ter indicação de feridos, posição que contrasta com os relatos dos participantes e com os números divulgados pelo movimento.

Até ao final da manhã, não tinha sido divulgado um comunicado oficial da Direção Nacional da PSP ou do Governo sobre a operação.

O protesto teve origem na manifestação de 10 de outubro, que reuniu cerca de 1.500 pessoas no Porto contra o aumento do custo de vida e as dificuldades no acesso à habitação. Nos dias seguintes, vários ativistas permaneceram na Praça de D. João I, onde foram instaladas tendas para prolongar a contestação.

Na segunda-feira, a Polícia Municipal e a PSP já tinham retirado cerca de 50 tendas. Na quarta-feira, Pedro Duarte afirmou publicamente que a autarquia seria «absolutamente implacável» com novas estruturas no espaço público, defendendo que a praça não poderia funcionar como um parque de campismo.

Nessa mesma noite, uma assembleia popular, que a organização estima ter reunido mais de 500 pessoas, decidiu retomar a acampada. Horas depois, a intervenção policial pôs fim à ocupação.

O Movimento pela Habitação exige agora o apuramento rigoroso e independente dos acontecimentos, numa operação que volta a colocar no centro do debate a crise habitacional, o direito ao protesto e a atuação das forças de segurança no espaço público do Porto.

Foto: DR